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| Amor é um verbo - Gary Chapman |
Tamara Vermeer
Certo dia, Tony entrou em nosso escritório, onde Tim, meu marido, aconselha veteranos com deficiências. Seu sorriso brilhante iluminava-lhe o rosto. Ele não era mais alto que meu filho de catorze anos. Careca, magro como um poste na casa dos quarenta anos. Encantador, era dono do tipo de charme ao qual, estou certa, sua mãe não resistia mesmo quando ele fazia alguma coisa errada. Ele deu um meio sorriso tão facilmente que quase ri junto com ele - não consegui evitar. Encontrei-o apenas rapidamente, mas ele deixou uma marca no meu coração que nem sequer percebi que estava lá.
Alguns dias depois, Tim me perguntou:
- Você se lembra de Tony?
- Certamente - respondi, enquanto separava a correspondência.
- Deixe me falar um pouco mais sobre ele. Ele é HIV positivo, sobreviveu ao furacão Katrina, foi transferido aqui para Denver e, até onde sei, é completamente solitário. Não tinha casa, mas recentemente conseguiu uma moradia do governo. Mas ele está muito doente, seu apartamento está praticamente vazio e está dormindo no chão. Ele não tem sequer uma cama.
"Ele não tem sequer uma cama - sem cama e doente." Essas palavras ecoaram na minha mente. "Sem cama, sem cama." Imaginei o pequeno Tony encolhido no chão. Como todo nós, eu já ouvira falar de situações desesperadoras como essa, mas isso sempre aperta o meu coração e me sinto horrível. Dessa vez, porém, foi como se alguém tivesse chacoalhado e gritado: "Ele não tem cama! Veja o tanto que você tem!"
Nossa família sempre gostou de ajudar os menos afortunados - dar presentes de Natal para pessoas em dificuldade, levar refeições para parentes de pessoas internadas, doar dinheiro para crianças da África. Mas essas eram maneiras "seguras" de ajudar e, depois, voltar para casa; nossa vida não estava entrelaçada com a de ninguém.
Meu estômago se agitou e senti-me um pouco trêmula. Eu precisava arrumar uma cama para aquele homem. Não sabia porque precisava agir dessa forma, mas Deus sabia. E precisava ser uma cama nova! Por alguma razão eu queria amá-lo com abundância. Embora me sentisse compelida a ajudá-lo, ficava pensando em que estava me metendo. Nunca fizera nada assim antes.
Entregamos a cama e toda a roupa de cama nova que eu e minhas filhas havíamos escolhido. Eu estava muito nervosa. Ele se sentou em sua cama nova, alisou os lençóis e sorriu. Então a emoção tomou conta daquele homem, que começou a chorar. A tosse agitava seu corpo magro.
- Obrigado. Muito obrigado. Não sei o que dizer. Eu... eu...
Suas palavras se afundaram em lágrimas. Aquela cama parecia representar uma luz num poço escuro e profundo. Ele olhou para nós com algo que eu chamaria de gratidão confusa. Não sei como descrever de outro modo. Ele nem sequer nos conhecia.
- Tony, querido! O que está acontecendo aqui? - disse a Janianita, sua vizinha idosa, do outro lado do corredor, enquanto se aproximava - Sei que não estou vestida adequadamente para conhecer pessoas, mas quis ver o que estava acontecendo!
Ela viu a cama nova, olhou para Tony, balançou seus cabelos grisalhos e disse:
- Meu amor, eu lhe disse que Deus cuidaria de você. Ele ouviu você; sim, ele ouviu.
Nossos amigos e familiares entraram logo depois: novos potes e panelas, pratos, toalhas, micro-ondas, dinheiro - tudo o que você imaginar! E, além isso, minha irmã Laurie comprou toda a mobília - nada de móveis usados e descartados por alguém, mas tudo novo, combinando móveis com tapetes.
- Laurie - eu disse - fico um pouco aflita por você ter gastado tanto dinheiro. Não o conhecemos bem; ele pode vender tudo, ou alguém pode roubá-lo...
- Quero fazer isso, não importa o que aconteça depois - ela disse com um sorriso no rosto. Amor em abundância.
Outro dia, liguei para ver como estavam as coisas. Tony sempre tinha uma visão positiva das coisas.
- Olha, estou muito bem, muito bem mesmo. Você sabia que amanhã é o meu aniversário?
- Tony, vamos fazer uma festa de aniversário - eu disse.
Minha família compareceu, juntamente com os meus pais e até uma amiga da minha filha. Embrulhamos em pacotes coloridos o restante das coisas que as pessoas tinham comprado e lavamos o bolo. Tony se sentou no sofá, ladeado por meus pais, e as lágrimas rolaram.
- Nunca tive uma festa de aniversário como esta! Sabe como é, somos catorze irmãos.
Eu não sabia disso. Onde estava a família dele? Pequenos pedaços de sua vida começavam a aparecer.
Enquanto voltávamos para casa, a amiga da minha filha sorriu ao olhar pela janela e disse:
- Este foi o melhor dia da minha vida.
Mais tarde, quando voltei para levar-lhe um pouco de comida, vi que Tony havia pregado todos os papéis de presente na parede.
A saúde de Tony começou a piorar. Ele sentia muito dor no peito e tinha dificuldade para respirar. Liguei para ele na manhã de segunda-feira.
- Fui para o hospital três vezes nesta semana, Tamara. Tive dores terríveis no peito.
- Oh, Tony - eu disse. Senti-me horrível. - Como você conseguiu chegar lá?
- Peguei o ônibus, mas precisei caminhar cerca de um quilômetro até o ponto. Disseram que não encontraram nada e me mandaram de volta para casa, mas não melhorei e voltei mais duas vezes.
Eles nem mesmo o ajudaram a voltar para casa! Fiquei furiosa! No meu mundo, existia uma família e um carro para me levar, e jamais me mandariam de volta para casa naquele estado. No mundo dele, ele estava sozinho e ninguém se importava.
Percebi que ele precisava de alguém para garantir sua saúde, de modo que Tim e eu decidimos intervir. Talvez por causa de seu histórico, talvez pelo fato de estar sozinho, ele continuava a ser tratado como se não fosse digno do respeito e dos esforços dos profissionais da área médica. Ele foi hospitalizado diversas vezes, e nem sei o número de reclamações que fiz ao hospital quando ficava sabendo como ele fora tratado. As enfermeiras sempre perguntavam:
- E quem é você?
Eu me fazia de ofendida e dizia:
- Ora, sou sua irmã mais velha, é claro! Você não vê como somoms parecidos? Ele é negro e mede ,67 metros e eu sou branca e meço 1,77 metros.
Tony piorou. Certo dia, sentei-me ao lado dele enquanto esperava a consulta com o oncologista. Tony estava assustado. Virou-se para mim e disse:
- Por que você está fazendo isso? Você não me conhece de verdade e não sabe as coisas que eu já fiz.
Sorri e disse:
- Bom, você também não me conhece direito e não sabe as coisas que eu já fiz.
- É verdade - ele concordou.
- Acho que estou simplesmente dando ouvidos a Deus, Tony. Ele sabia que você precisava de alguém para estar ao seu lado neste momento e simplismente amar você.
Tony tinha câncer no pulmão. Não sabiamos quanto tempo ainda lhe restava, e minha irmã sentiu que ele precisava reunir-se com sua família outra vez. Insistimos em que ele ligasse para sua mãe. Ela morava no Mississippi.
- Ah, não quero deixá-la preocupada. Ela tem quase oitenta anos - Tony justificou. Mas a melancolia estava clara em sua voz.
Meus pais começaram a visitá-lo em seu apartamento e no hospital. Ele os chamava de mama e papa e frequentemente chorava ao conversar com eles por telefone. Acho que ele tinha muita saudade de sua mãe.
Certa noite, por volta das oito horas, ele ligou do hospital.
- O médico está aqui e...
Sua voz falhou e minha garganta apertou quando ele disse: "Não é coisa boa, minha irmã."
Ele tentou rir, mas o riso tranformou-se em soluço. O médico pegou o telefone e me disse, sem nenhuma emoção, que Tony estava no estágio quatro do câncer de pulmão e tinha de seis semanas a quatro meses de vida. Fiquei tão irritada que comecei a tremer. Havia pedido ao pessoal do hospital que me ligasse para que eu pudesse estar com ele quando tivessemos o diagnóstico. Receber notícias como essa sozinho é ainda mais devastador.
Corremos para o hospital. Para minha surpresa, Tony sorriu, segurou minhas mãos e, dessa vez, os papéis se inverteram: ele me confortou! Chorei muito.
- Sei que você acha que esse médico não tem coração, mas eu precisava ouvir a verdade, e ninguém me diria - Tony falou.
Foi então que percebi o quanto amava Tony.
Mais tarde Tony me disse que, depois de ter recebido aquela notícia, deixou o quarto e desceu as escadas planejando sair pela porta do hospital e desaparecer para sempre.
- Subi as escadas de volta porque lhe disse que estaria aqui e não queria desapontá-la. Se não fosse por vocês, eu não estaria aqui agora.
Ele telefonou no dia seguinte e cantou minha secretária eletrônica. Deu aquela risada que me faz rir e então me fez chorar. "Eu costumava cantar no Mississippi Mass Choir", ele disse. Surgiu outro pedaço de sua vida.
Continuamos a pressioná-lo a entrar em contato com sua família. Ele finalmente ligou para sua irmã Cynthia. Minha irmã, com aquele coração grande e generoso, ofereceu-se para pagar a passagem de Cynthia a Denver e alugar um carro para ela. Cynthia não fazia idéia de que o irmão estava tão doente. "Não entendo porque ele não ligou antes! Eu teria vindo antes disso."
Tony se destanciara da família por motivos que eles ainda não entendem. Era óbvio que o amavam. Mas, de alguma maneira, a vida o havia ferido profundamente.
Cynthia chegou e, certa noite, no apartamento de Tony, abriu seu coração. "Sabe, tive alguns problemas na coluna e não posso trabalhar, mas senti que havia algo que eu podia fazer. 'Senhor", orei, 'qual é o meu propósito de vida? O que o Senhor quer que eu faça?' Bem, aqui está a resposta. Devo levar Tony para casa e cuidar dele".
O serviço de assistências aos Veteranos pagou a passagem de avião de Tony, e minha irmã pagou a de Cynthia. Assim que Tony foi para casa, soube que nunca mais o viria.
Sua família se reuniu para ver a ovelha que havia se afastado. Seus irmãos e suas irmãs vieram de todos os cantos do país, assim como suas filhas - sim, ele tinha duas filhas e quatro netos. Sua história continuava a se revelar.
Sua mãe nunca o abandonou. Ela me ligou um dia e disse: "Tenho orado por um milagre para meu Tony, e vocês foram esse milagre." Tony morreu no mês de maio. Ele dormiu e não acordou mais, mas morreu junto a família. Não estava mais sozinho.
A família de Tony incluiu a foto de nossa família no programa de seu funeral, juntamente com as seguintes palavras: "Não poderíamos ter tido uma família melhor que vocês para cuidar de nosso amado Tony. Dizer-lhes obrigado não é o suficiente! Que Deus os abençoe e os guarde."
Aproveitei uma chance de derramar meu coração e deixar que um pouco de amor abundante transbordasse, e veja o que aconteceu: uma inesperada história de amor.-------*-----------*-----------
Há momentos na vida em que damos uma chance a alguém. Essa decisão faz nosso estômago se contorcer e deixa nossas mãos trêmulas. Não precisamos fazer isso, ninguém ficará sabendo se não o fizermos, e nossa vida seguirá adiante como sempre. Mas, quando começamos a amar não apenas como uma experiência esporádica, mas de maneira abundante, nossa vida é transformada para sempre. Quando amamos com generosidade, recebemos recompensas inesquecíveis. Às vezes, esse cuidado toca não apenas a outra pessoa, mas tem um efeito propagador, criando uma "família ampliada", que se torna uma mostra da verdadeira comunhão que todos nós desejamos ter.
(Extraído do livro: Amor é um verbo - Gary Chapman).
"O melhor livro que já li. O amor é surpreendente. O amor realiza milagres."
Aline Brito

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