A maior mentira que nos contaram - e que nós, piamente, acreditamos - é essa, a de que tudo passa. Nada passa. Passa coisa nenhuma.
A gente aprende a viver com as escaras, aprende a colocar unguentos nos talhos fundos, conhece outras pessoas que são como bálsamos sobre as nossas feridas, mas elas, as sanguinolentas, as malsãs, elas não passam.
Sentimentos? Eles se transformam em outros sentimentos, mas não passam. As pessoas que você amou nunca te causarão indiferença, sua única certeza é que você sempre vai sentir algo quando as encontrar - algo bom ou ruim, muito bom ou muito ruim. As pessoas que te menosprezaram, te usaram ou simplesmente te rejeitaram, continuam cada qual com sua adaga, perfurando seu amor-próprio, dia após dia, umas mais, outras menos.
Somos todos, homens e mulheres, mestres no fingimento, na dissimulação, mas a verdade, meus caros e minhas caras, a verdade é que nada passa. Por isso você vê uma mulher histérica ao pegar uma cebola podre no supermercado, por isso você vê o homem agindo como um primata no trânsito, por isso seu chefe estoura sem razão, por isso você teve uma crise de choro durante aquele filme, por isso as pessoas têm chiliques inexplicáveis: porque nada passa e nós precisamos de válvulas de escape. Estão ali, semimortas, estão ali indiferentes.
O Dizer que vai passar é a maneira de amenizar a dor por segundos. Tentar acreditar que um dia aquilo acaba, mas o dia não chega não finda a dor, a saudade e a urgência.
Nelson Ned tentou ser feliz ao cantar a música “Mas tudo passa tudo passará. E nada fica nada ficará”, isso que se canta chamamos de esperança, porque somente ela nos dá essa falsa impressão de que as coisas vão progredir, de que os olhos vão abrir e de que novos amores vão chegar, nos curando, arrebatando para a felicidade. Claro que tudo o que não é pra ser, simplesmente não acontece. Mas o que aconteceu, isso não se esquece, porque na verdade, nada passa, nada passará!
PS:. Tenho consciência de que esse texto está sujeito a alterações com o tempo, por enquanto, infelizmente, é nisso que acredito!
Aline Brito
