Sentir falta, ao contrário do que dizem por aí, é diferente de
sentir saudade.
Ah, sentir saudade... Sentir saudade é grandioso. Dor enorme que rasga por
dentro nos dias seguidos, horas intermináveis num tempo infinito.
Sentir falta não...
Sentir falta é pontual!
Sentir falta é dor fina, dor de beliscão com a unha, dor de anestesia de
dentista. Sentir falta é mais específico. Sente-se falta do carinho quando
sentia sono, das implicâncias, sente-se falta do jeito engraçado como cantava
as músicas, errando tudo. Sentir falta é mais egoísta e quase que material.
Sentir falta do jeito calmo dele, da bagunça dele e da sua teimosia. Do jeito
engraçado e da maneira de rir. Sentir falta é pequeno, mas não menos doloroso... Não mesmo.
A dor da saudade é grande. É infecção generalizada. É uma gripe daquelas.
A saudade não te deixa respirar e não te permite trabalhar, te faz faltar o ar.
É dor das grandes que te derruba de tal forma que, de repente, por mais que
esteja sol, faz um frio de rachar na sua casa e você pode jurar que nunca -
nunca - sairá de novo de dentro do seu edredom, porque suas forças acabaram
ali, naquele instante, e não há mais nenhum fiapo de vontade sequer para colocar
um tênis. Isso é saudade.
Saudade não é sempre de uma coisa específica.
Pode até ser, mas normalmente saudade é plural. Saudade é dos dois. Saudade é
de você mesma com os olhos brilhando quando o via.
Saudade do frio na barriga, saudade do começo, saudade daquela viagem pequena,
mas que significou tanto. Saudade da maneira como ele dormia, saudade daquela
vez que passou o dia todo ao lado dele, saudade do filme assustador que ele te
abraçava, mas não tão assustador assim. Da expectativa de sair juntos, da
ansiedade, da enorme felicidade e graça que só vocês conheceram.
Saudade de coisas
efêmeras, saudades de fumaça que não se pega, não se toca e, talvez, nem tenha
acontecido de fato.
Por isso, saudade pode ser inventada - falta não. Saudade é contínua, falta é
curta. Saudade é pó, falta é pedra. Saudade é soco no estômago, falta é puxão
de cabelo.
Falta é daquilo que não está ali, mas que deveria
estar. É a dor dos dias intocados, da luz apagada, do sofá só seu. A falta está
na rotina, nas pequenas coisas concretas do dia a dia. Ela é pontual, mas pode
aparecer todos os dias e em todos os momentos dele.
Todos os dias você sentirá a dor fina da picada de uma abelha quando notar, por
exemplo, que a sua noite de domingo será só, ou que aquele dia chuvoso depois
da faculdade te molhará sem ele por perto. Lá está a dor da falta vindo de
repente, tal qual um ladrão que te furta a bolsa. Ela vem e, como uma unha
encravada, não te impede de trabalhar, de viver e até de sorrir, mas avisa que
está lá, latejando dentro do sapato bonito.
Você pode até ser curado da saudade, mas,
talvez, um dia, quando alguém tocar um violão você vai sentir uma falta enorme
dele, e de todas as soluções simples que ele tinha para problemas tão complexos
como esse. E talvez se lembre, também, do problema simples que o separaram e
ele achou tão complexo.
Talvez uma se cure antes da outra, talvez
nenhuma das duas tenha cura. Ambas, no entanto, te trazem a sensação da
angústia. Ambas acontecem apenas quando o objeto da saudade ou da falta parece
estar ali, na beirada da sua vida. Ambas te fazem esticar o braço com força,
com toda a sua força, o máximo que pode para alcançar aquilo que já não está
mais ali, que é sombra, é lembrança e por isso dói.
Talvez essas duas dores só sumam de fato quando ele sair da beirada. Quando o
desenho do rosto dele não for mais tão nítido na sua memória, quando o som rouco
da voz dele não for mais tão claro em teus ouvidos. A saudade e a falta, de
formas diferentes, com dores distintas, clamam por aquilo que mais se teme e
mais se quer. Saudade é falta, mas sem ser sinônimo e, talvez, sem ser e sem
ter solução.
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